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LISBOA ESTÁ EM
FESTA
QUANDO TUDO ACONTECEU...
1850: Data aproximada de nascimento de Ngungunhane - 1858:
Morte de Manukuse, fundador do império de Gaza, avô de
Ngungunhane - 1884: Morte de Muzila, pai de Ngungunhane e
subida deste ao poder - 1885, Fevereiro: Conferência de
Berlim e partilha de África pelas potências europeias -
1890, 11 de Janeiro: Ultimato britânico ao governo português
- 1894, Agosto: Rebelião dos tsongas na região de Lourenço
Marques - 1895, 11 de Novembro: O exército português vence
os ngunis, arrasa e incendeia Mandlakasi, capital do império
de Gaza - 1895, 28 de Dezembro: Mouzinho de Albuquerque
aprisiona Ngungunhane em Chaimite, a aldeia sagrada dos
ngunis - 1896, 13 de Março: Ngungunhane, sete das suas
mulheres, seus filho e tio e dois régulos são desembarcados
em Lisboa, em estado de festa pelas capturas - 1896, 23 de
Junho: Ngungunhane chega à ilha Terceira, Açores, onde fica
desterrado até à morte - 1906, 23 de Dezembro: Morte de
Ngungunhane - 1985, 15 de Junho: as ossadas, provavelmente
falsas, chegam à República de Moçambique.
Manhã cedo, 13 de Março de 1896, o vapor "África" fundeia a
meio do Tejo, frente a Cacilhas. Fragatas, canoas, botes,
dezenas de embarcações a remos e à vela rodeiam o navio que
largou Lourenço Marques dois meses antes.
Lisboa está em festa. Milhares de pessoas acorrem ao cais
para ver o último trofeu de guerra da monarquia. É a "fera
cruel", o "pesadelo de todos os governos portugueses", o
"régulo sanguinário", como o classificam os jornais nos
últimos anos. É Ngungunhane (Gungunhana na ortografia
colonial) capturado por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite,
a 28 de Dezembro de 1895.
Depois de horas de insistências, alguns jornalistas
conseguem permissão de subir a bordo. Encontram o grupo de
16 prisioneiros a estibordo num exíguo espaço mal iluminado
com dois patamares de beliches. Nas esteiras superiores está
Ngungunhane com sete das suas rainhas: Namatuco, Machacha,
Patihina, Xisipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi. No beliche
inferior amontoam-se Godide, filho primogénito de
Ngungunhane, o régulo Matibejane e as suas três mulheres, o
régulo Zixaxa, Molungo, tio de Ngungunhane, e Gó, o
cozinheiro do imperador.
Aos jornalistas impressiona o cheiro nauseabundo de dois
meses de clausura.
"Quando entramos nos alojamentos — lê-se no Diário de
Notícias no dia seguinte — estavam todos os pretos deitados
e o Gungunhana, que ocupava uma extremidade da tarimba,
tinha o rosto coberto. Alguém lhe descobriu a cara e o preto
despertou, olhando para todos com olhos desconfiados. Pouco
depois, como os jornalistas e outras pessoas admitidas a
bordo eram cada vez em maior numero e o espaço faltasse, foi
ordenado que subisse a pretalhada para a tolda, onde se
faria a sua exibição".
Ngungunhane está exausto e horrorizado. Desde a captura em
Chaimite que receia o fuzilamento. Chora, implora, treme,
esconde o rosto com as mãos, oferece tudo o que já não tem
para obter a libertação, dinheiro, gado, ouro, marfim,
escravos, terras. Aos que o rodeiam pergunta sem cessar:
"Digam-me o que querem de mim. Vai morrer? Para que lhes
sirvo eu? Deixem-me regressar que morro se não vejo as
minhas terra", traduz o intérprete.
Quando lhe apontam o Palácio da Ajuda pede ao comissário
régio de Moçambique António Enes para ser recebido por D.
Carlos. Quer implorar perdão, jurar fidelidade ao monarca a
quem anos atrás enviara duas embaixadas recebidas com pompa.
Talvez ele o deixe retornar ao seu vasto império.
Às três e meia da tarde os prisioneiros desembarcam no
Arsenal. Há cada vez mais gente a desfrutar o espectáculo. O
ar altivo, as roupas e os enfeites das mulheres despertam a
curiosidade. "Quase todas altas e mais cor de castanha que
pretas (…) carapinha bem penteada (…) feições finas, bonitas
mesmo", admira-se a imprensa.
No interior do Arsenal, Godide torna-se objecto de
curiosidade particularmente das esposas dos funcionários. É
jovem, alto, fala português, não está assustado como o pai.
Quando consta que sabe assinar o nome, as distintas damas
assediam-no com risinhos histéricos para obter o autógrafo
do bem disposto prisioneiro.
O grupo é metido numa jaula em forma de carruagem com
destino ao forte de Monsanto. Atravessa as ruas da Baixa
lisboeta, a Avenida, Palhavã, Sete Rios, Benfica, Calhariz.
O povo é tanto que nalguns locais o cortejo dificilmente
avança. Os dichotes e as humilhações que os prisioneiros
sofrem são de tal monta que a imprensa protesta pela
passividade da polícia.
Como a curiosidade da população ainda não está saciada,
ficam em exibição como uma peça da fauna africana no Jardim
Botânico de Belém. Quando chegara de Chaimite, o governador
de Moçambique também exibira Ngungunhane e parte da sua
corte numa plataforma erguida junto à sua residência em
Lourenço Marques.
O IMPÉRIO
Quem assim acaba enjaulado como troféu de caça, humilhado e
escarnecido, fora o senhor do segundo maior império de
África do século XIX. Um império que no seu esplendor se
espraia do rio Incomáti à margem esquerda do Zambeze e do
oceano Índico ao curso superior do rio Save. Olhando o
actual mapa político da África Austral, ocupa mais de metade
de Moçambique, um pedaço do Zimbabwe e entra pela África do
Sul. Tem um população estimada entre 500 mil a dois milhões
de habitantes de várias etnias.
O Império de Gaza é fundado pelo povo nguni (vátuas ou
aungunes, na terminologia colonial), um dos ramos dos zulus.
Vêm do sul empurrados pela guerra civil que lavra desde o
início do século.
Os ngunis são excelentes guerreiros conhecedores das
tácticas e técnicas de combate, grandes organizadores de
exércitos.
Quando penetram em Moçambique, por volta de 1820, subjugam
os povos aí instalados, escravizando-os: chopes, tsongas,
vandaus, bitongas. Dominam-nos provocando rivalidades entre
eles, com execuções individuais, massacres e até genocídio
sistemático, em particular no caso dos chopes, a etnia
acantonada no litoral só definitivamente subjugada pelos
portugueses em 1893.
O chefe Sochangane (avô de Ngungunhane), depois chamado
Manukuse, alarga o reino — a que dá o nome de Gaza em
homenagem ao seu bisavô — e estabelece a capital em
Chaimite, mais tarde tornada na aldeia sagrada dos ngunis.
Rei todo poderoso, Manukuse reduz todos os povos da imensa
região à vassalagem, obrigando-os a pesados tributos na
forma de escravos, gado e dinheiro. Impõe-se à frágil
administração e presença militar portuguesas sem qualquer
dificuldade, exigindo das autoridades de Inhambane e de
Lourenço Marques o envio de embaixadas.
Manukuse morre em 1858, em Bilene. Durante cinco anos, os
seus filhos Mawewe e Muzila protagonizam uma sangrenta e
devastadora guerra civil porque ambos reivindicam o direito
consuetudinário à sucessão. Mawewe é empossado. Hostil a
boers holandeses e a portugueses, o filho mais velho de
Manukuse rouba e assassina comerciantes e caçadores brancos
que se aventuram pelas terras do interior, enviando
mensagens agressivas e provocatórias para a administração de
Lourenço Marques.
Com o apoio de ricos comerciantes portugueses e do
governador de Lourenço Marques, Onofre de Andrade, que lhe
fornece duas mil espingardas, 50 mil cartuchos e 1.200
pederneiras e envia soldados da guarnição da cidade, Muzila
vence o irmão na última e decisiva contenda da guerra civil,
travada em 16 de Dezembro de 1861. Perto de vinte mil
cadáveres ficam no campo de batalha.
Chegado ao poder, Muzila — que transfere a capital para
Mossurize, bastante ao norte de Chaimite — esquece a
vassalagem declarada ao rei D. Luís lavrada no acordo com o
governo de Lisboa e estabelece boas relações com as
autoridades do vizinho Natal, e através destas, com o Reino
Unido. Morre em 1884.
O LEÃO DE GAZA
A sucessão de Muzila é disputada por três dos filhos:
Mafemane, o primogénito, Mudungazi, filho da sua preferida,
e Como-Como.
Mafemane é assassinado a mando de Mudungazi enquanto
Como-Como e dois outros irmãos fogem para o Transvaal.
O caminho está aberto para a subida ao trono de Mudungazi.
Após um tempo em que a morte de Muzila é conservada em
segredo, mata-se um búfalo a que se tira a pele para
envolver o corpo do rei. À medida que o cadáver se decompõe,
suspenso no interior da palhota real, é recolhido o sangue
num recipiente e misturado com vários ingredientes. Faz-se
então a bebida sagrada que é dada ao herdeiro.
Ele é agora Ngungunhane, cognome com vários significados.
Para uns é "o terrível" ou "o invencível", para outros as
grutas do mesmo nome para onde são lançados vivos os
condenados à morte. Ou então o "Leão de Gaza", o nome que a
história guardou.
Já investido, Ngungunhane abre a sepultura do pai onde
também estão os cadáveres de uma velha e de um cão que lhe
haviam sido imolados.
Desfilam diante do recinto sagrado o herdeiro, os gados do
defunto e o seu exército. No dia seguinte, é a vez dos
outros régulos e chefes prestarem o homenagem a Ngungunhane
que termina com a saudação real bayete! repetida a uma voz.
A sagração ao novo rei está encerrada.
OLHARES SOBRE NGUNGUNHANE
Onze anos dura o poder absoluto de Ngungunhane no vasto
império nguni.
Os que com ele privaram deixam testemunhos dispares e
contraditórios sobre a sua personagem e o seu desempenho
político. As imagens da história reflectem essa diversidade
de olhares.
Georges Liengme é um missionário e médico suíço que viveu os
três anos anteriores ao desmoronamento do império junto ao
kraal (residência ou curral) de Ngungunhane. (São dele um
notável conjunto de fotos, do quotidiano do régulo e da sua
corte). Sem deixar de realçar a prudência que norteava os
actos de governação do monarca e a sua capacidade de ouvir
opiniões e de se informar antes de tomar decisões
importantes, Liengme traça um retrato de um bêbado
inveterado capaz de emborcar quantidades impressionantes de
"cerveja cafre", de aguardente ou de vinho do Porto,
abundantemente fornecidos pelos comerciantes e
representantes da administração portuguesa. " É o régulo, no
fim de contas, o que bebe menos", escreve o médico suíço a
propósito das constantes celebrações de casamentos de
Ngungunhane "com mulheres que se deixam virgens" e das
"orgias frequentes" a que se dedicava. A mesma opinião é
partilhada pelo historiador francês René Pélisser que fala
do normal "estado de embriaguez crónica" do rei.
Liengme conta em abundância as deploráveis cenas que lhe é
dado assistir do alcoolismo generalizado dos homens e
mulheres ngunis. Impotente, o médico suíço insurge-se vendo
as jovens embriagadas que saem aos tombos da casa do
intendente português.
Quando da morte de Mango, o filho do rei mais inteligente e
culto, um dia depois de se recolher na palhota com um
garrafão de 25 litros de aguardente oferecido pelo
residente-chefe português, Ngungunhane, a insistências de
Liengme, promete proibir o consumo de álcool. Envia um
garrafão a cada régulo avisando ser este o último. Quem
desobedecer será morto.
Os chefes dizem cumprir a ordem do monarca e, depois de
ingerida a última gota de aguardente, cospem na sua presença
para uma cova em sinal de desprezo pela bebida. Promessa vã.
Nem Ngunguhane dá o exemplo aos seus súbditos nem os
comerciantes brancos querem perder tão lucrativo negócio.
"Diabólico e monstruoso", — diz ainda Liengme de Ngungunhane
— "toda a sua política era de tal modo falsa, absurda, cheia
de duplicidade, que se tornava difícil conhecer o seus
verdadeiros sentimentos".
O intendente português junto da corte nguni, Matheus
Serrano, descreve assim o seu primeiro encontro com o
régulo:
"O Gungunhana recebeu-me com manifesta urbanidade. É ele um
homem reforçado, cheio de carnes, de estatura regular, tipo
simpático, e agradável na conversa. Mostra ser inteligente e
de grande agudeza de espírito. Fala mansamente, com
intermitências, como de quem sofre falta de ar ou tem a
garganta ferida".
Também o tenente Aires de Ornelas, enviado da administração
portuguesa, o olha com simpatia: "Só direi que admirei o
homem, discutindo tanto tempo com uma argumentação lúcida e
lógica".
O major Caldas Xavier enaltece-lhe "o bom senso e tacto
administrativo", Douglas Wheeler, diplomata inglês,
considera-o "um político hábil e arguto". Outros referem-lhe
a astúcia e o hábil manejo nas negociações para obter
concessões aliciantes.
Exímio na arte do "dividir para reinar", o "Leão de Gaza"
governa o império com despotismo e mão férrea. Como o avô e
o pai, chacina as etnias submetidas, queima as suas aldeias,
rouba e pilha os seus bens. Senhor de muitos milhares de
escravos, adopta as moças capturadas para depois engrandecer
a sua fortuna com o recebimento do lobolo (dote) do
casamento.
VUIAZI, A PAIXÃO
Tem um harém de cerca de 300 mulheres — 30 ou 40 vivem nas
palhotas que rodeiam o kraal em Mandlakasi (Manjacaze) as
outras estão disseminadas pelas aldeias vizinhas — mas não
lhe são contados mais de 20 filhos e filhas, apesar do
apetite sexual desmesurado que lhe é atribuído.
Vânia, Sibaeca e Sonie. São as três sucessivas favoritas
principais, ou mulheres grandes, que tem Ngungunhane.
Dispõem de importantes privilégios, são respeitadas, ricas,
servidas por um bando de escravas. Apenas elas têm direito a
usar o chifoco (penteado cilíndrico alto) e a adornar-se com
as trinta pulseiras em cada braço. Nenhuma das três rainhas
grandes o vai acompanhar no desterro para Portugal.
Aquela que Ngungunhane mais quis não a pôde desposar. Foi
Vuiazi, mãe de Godide, o filho que irá encantar as damas no
Arsenal em Lisboa e morrer tuberculoso na ilha açoreana da
Terceira, em 1911. Vuiazi era a mais bela jovem de Gaza.
Pele clara e acobreada, alta, pernas grandes e esguias,
dentes de imaculado marfim, bamboleante andar. Linda e
fácil, nunca se recusou aos homens que a desejavam. Foi a
paixão de Ngungunhane, ainda ele se chamava Mudungazu.
Muzila proibiu o casamento do filho com uma jovem que já
tinha sido de tantos outros homens e Vuiazi desapareceu sem
deixar rastro. Quando subiu ao trono, Ngungunhane rendeu-lhe
homenagem ao instituir um modo de juramento em que os
súbitos pronunciavam Vuiaze.
AS FESTAS DE FEVEREIRO
O imperador de Gaza faz da corte um festim permanente.
Dança-se, canta-se, bebe-se e come-se em desregrado em todas
as celebrações religiosas, nas cerimónias de alegria ou de
dor, nos festejos dos nascimentos, da morte, dos casamentos,
nas vitórias das guerras. Ou quando uma mulher procura
engravidar de um homem que não o marido porque ele é
estéril, faleceu sem deixar filho varão ou por ter prole
reduzida. Grita-se, ama-se com muitos risos.
Mas ninguém é mais exuberante que Ngungunhane. Sobretudo nas
festas do Nkwayo que decorrem por todo o mês de Fevereiro em
Mandlakasi. São as festas reais feitas em homenagem ao
imperador e onde se executa, sumariamente, quem guardar
silêncio ou se divirta ou dance fora dos cânones
estabelecidos pelo imperador.
Começam quando Ngungunhane, acompanhado pelas suas mulheres,
saúda Impibekassano, mãe substituta do régulo depois da
morte de Uzio, sua mãe biológica, e milhares de guerreiros
louvam o poder invencível, o heroísmo, a força e a juventude
do "Leão de Gaza" em intermináveis cânticos sagrados.
O frenesim das festas do Nkwayo aumentam ao longo do mês,
entram pela noite fora. Atingem o auge no último dia
encerrando com o banho purificador de Ngungunhane na lagoa
para depois dançar nu no meio do seu povo.
O BOLO AFRICANO
O reinado de Ngungunhane inicia-se meses antes da
Conferência de Berlim, em Fevereiro de 1885, onde as
potências coloniais acordam na partilha da África. O direito
de posse fica subordinado à ocupação e administração
efectivas dos territórios.
Moçambique é cobiçado pela Grã-Bretanha e pela Alemanha. Os
ingleses e particularmente o todo poderoso Cecil Rhodes,
patrão da British South Africa Company, elegem a região de
Gaza e o porto de Lourenço Marques em objectivos
estratégicos para o escoamento das matérias-primas do
Transvaal.
Juntam-se-lhes o apetite de três grandes concessionárias que
usufruem do poder quase absoluto nos imensos territórios que
exploram, as Companhias do Niassa, a da Zambézia e a de
Moçambique.
Após Berlim, Lisboa tenta recuperar o tempo perdido. Como
testemunhará mais tarde o mitificado herói das "campanhas de
pacificação" Mouzinho de Albuquerque "a ocupação na
província de Moçambique resumia-se de facto a uma estreita
faixa do litoral, à excepção de alguns pontos isolados do
interior".
O governo português age com rapidez. Encarrega um importante
comerciante português das simpatias de Ngunguhane, Casaleiro
d’Alegria, a convencê-lo a enviar a Lisboa uma embaixada
para assinar um acordo de amizade e vassalagem. Para o
régulo nguni, o tratado assinado em Outubro de 1885 mas que
ele nunca se preocupará em ratificar, serve para se defender
das ambições dos ingleses e reforçar o domínio sobre os
povos subjugados do seu vasto império.
No ano seguinte, o ministro dos Estrangeiros, Barros Gomes,
assina com o chanceler alemão Bismark o tratado da
delimitação das colónias dos dois países a que, em 1887, é
anexado o "mapa cor de rosa" onde Angola e Moçambique estão
unidos com esta cor. Todo este território é acordado passar
para a soberania portuguesa.
Entretanto, procurando aproveitar-se das rivalidades das
potências europeias e defender a independência em relação
aos portugueses, Ngungunhane tenta o apoio dos ingleses e de
Cecil Rhodes. Em 1889, transfere a capital do império de
Mossurize para Mandlaksi, mais ao sul, para aliviar as
pretensões dos portugueses sobre as minas de Manica e
consolidar a soberania nguni.
Portugueses, ingleses, colonos sul-africanos, representantes
das companhias concessionárias procuram atrair de diversas
formas Ngungunhane para os seus interesses. Lisboa instala
um intendente-geral na corte, lugar previsto no tratado de
Outubro de 1885. Cecil Rhodes obtém do imperador, a troco de
um milhar de espingardas, munições e de um subsídio anual em
dinheiro, a concessão de exploração de minérios e o acesso
ao mar.
A 11 de Janeiro de 1890 o governo britânico decreta o
Ultimato impondo a retirada imediata das forças portuguesas
na região do Chire (Niassalândia) e das terras dos Mocololos
e dos Machonas (actual Zimbabwe). Em caso de desobediência,
o governo de Sua Majestade ameaça Lisboa com canhoneiras. D.
Carlos apressa-se a comunicar a Londres, no próprio dia do
Ultimato, que ele e o governo português cedem às exigências
do secular aliado.
A REBELIÃO TSONGA
Ngungunhane é surpreendido pela rapidez dos acontecimentos.
Fica sem resposta o seu pedido de protecção à Rainha Vitória
com que procura jogar no conflito entre Londres e Lisboa. Os
dois governos chegam a acordo na delimitação dos territórios
africanos, rubricado em Junho de 1891, e onde Gaza fica, sem
margem para dúvidas, no interior de Moçambique. O imperador
é intimado assumir-se como súbdito de Portugal.
Em Agosto de 1894, os tsongas da região de Lourenço Marques
— Terras da Coroa, chamam-lhe os portugueses — revoltam-se
depois de repetidos abusos das autoridades coloniais. Os
régulos Mahazule, Nwamatibyane e Amgundjuana reúnem milhares
de guerreiros, cercam durante mais de dois meses Lourenço
Marques preparando o assalto à cidade.
O Governador-Geral, brigadeiro Magalhães e Meneses, chega da
Ilha de Moçambique, a capital da colónia, ordena o
levantamento de trincheiras e arma canhões. Dispensa a
oferta de Cecil Rhodes para servir de medianeiro e consegue
suster, em 14 de Outubro, o ataque dos assaltantes que
deixam no terreno mais de uma centena de corpos.
A revolta dos tsongas faz soar o alarme em Lisboa que envia
para Moçambique o antigo ministro da Marinha António Enes
como Comissário Régio, dispondo de poderes superiores ao de
Governador-Geral. Acompanham-no um grupo de oficiais da
elite aristocrática do exército que irá fazer carreira na
administração colonial.
Partidário da pacificação pela força das armas, Enes promete
na despedida à Rainha Amélia "trazer preso aos pés de Sua
Majestade o famoso tirano da África do Sul", ele que é da
opinião que "o Estado não deve ter o menor escrúpulo em
obrigar e, se necessário for, forçar esses rudes negros da
África, esses ignorantes párias, esses semi-idiotas
selvagens da Oceânia a trabalhar".
Chegado a Lourenço Marques prepara o ataque aos tsongas.
Entrega o comando da expedição de 37 oficiais e 800 soldados
aos majores Ribeiro Júnior e Caldas Xavier que marcham sobre
Marracuene, na margem direita do rio Incomáti. O confronto
dá-se na madrugada de 2 de Fevereiro de 1895. A força
portuguesa, disposta em quadrado, vale-se do poder dos
canhões e metralhadoras e vence os tsongas que abandonam no
chão mais de 70 cadáveres. Vinte e quatro mortos e 28
feridos são as baixas contabilizadas do lado português.
Os régulos Nwamatibyane e Amgundjuana refugiam-se em Gaza (Mahazule
não combate em Marracuene da mesma forma que recusara
participar no ataque a Lourenço Marques) e ficam sobre a
protecção de Ngungunhane que lhes aceita a vassalagem.
BRAÇO DE FERRO
O rei nguni recusa entregar os chefes tsongas à tropa
portuguesa como exige o Comissário Régio.
Lisboa dá instruções claras, lembrando a António Enes que
"tudo o que não fosse o aniquilamento total de Gungunhana
não corresponderia aos sacrifícios pesadíssimos que o país
tinha feito".
O braço de ferro mantém-se. Ngungunhane recusa o ultimato do
Comissário Régio transmitido por José de Almeida, o
secretário da Companhia de Moçambique que está acreditado na
sua corte. As exigências portuguesas significam a submissão
total do poder nguni: fornecimento de mão-de-obra, impostos
leoninos, liberdade de circulação, construção de postos
militares.
Reunido o Conselho de Estado de Gaza, o poder de fogo já
exibido pela tropa portuguesa e as divisões que alastram no
seio dos ngunis reflectem-se na disposição da maioria em
aceitar o ultimato. Ngungunhane ignora a opinião dos
conselheiros e apenas se declara disposto a ceder num ponto:
entregar os chefes tsongas na condição dos soldados
portugueses passarem para lá das fronteiras do reino.
Georges Liengme nada consegue fazer na intermediação entre
os dois adversários irredutíveis.
Enes dá ordem de avançar às tropas, reforçadas com mais
efectivos chegados de Portugal.
Ngungunhane diz a José de Almeida que "vai abrigar-se à
bandeira de outros brancos". Mas os emissários aos centros
de decisão na África do Sul trazem-lhe recusas de ajuda.
A 8 de Setembro, a força comandada pelos capitães Freire de
Andrade e Paiva Couceiro que parte de Lourenço Marques em
direcção a Mandlakasi é atacada em Magul por 13 mangas
(regimentos) africanas, cerca de seis mil homens. Os
soldados portugueses, em número de 275, recorrem mais uma
vez à táctica do quadrado, defendido por arame farpado.
Como sempre, os guerreiros de Ngungunhane lançam-se em
formação de meia lua contra as metralhadoras e peças de
artilharia. A desproporção do poder de fogo é enorme. São
dizimados. Morrem 400 africanos contra apenas cinco soldados
brancos.
Depois desta nova derrota, o imperador nguni ainda tenta
negociar com o Comissário Régio e envia mais emissários a
Durban e à Cidade do Cabo na esperança de obter auxílio
britânico. Nada consegue.
DERROTA EM COOLELA E MANDLAKASI
António Enes quer cumprir o prometido à Rainha Amélia. Manda
o coronel Eduardo Galhardo, à frente de 600 oficiais e
soldados portugueses e 500 auxiliares africanos, tomar a
capital nguni. A coluna está equipada com 38 carros de
combate e seis canhões.
Ngungunhane conta com cerca de 13 mil homens, o que não
chega a um terço do que, poucos anos antes, recrutaria sem
dificuldade. O seu poder absoluto está claramente
enfraquecido. Vários régulos, entre os quais três tios do
imperador, não se apresentam para a batalha. Magigwani, o
reputado comandante-chefe das mangas ngunis parte para
Bilene em busca dos reforços que nunca chegarão.
O confronto acontece em Coolela, a 7 de Novembro. A situação
repete-se. O quadrado, o arme farpado, as metralhadoras, os
canhões e as novas carabinas de repetição Kropatscheck que
tinham substituído as velhas Mannlicher, esmagam os
regimentos de Ngungunhane. Morrem cinco soldados brancos
contra muitas centenas de guerreiros de Gaza.
Antes de encetar a fuga de Mandlakasi, Ngungunhane reúne-se
com os conselheiros e acusa tios e primos de traição pela
ausência na frente de combate.
A 11 de Novembro, o coronel Galhardo entra sem oposição em
Mandlakasi, que os auxiliares pilham e ele manda incendiar.
Ngungunhane refugia-se em Chaimite, a aldeia sagrada onde
está a campa de Manukuse, o fundador do Império de Gaza.
Oferece sacrifícios humanos ao avô e a outros antepassados
em troca de protecção divina.
António Enes quer a captura de Ngungunhane. É a promessa
devida à rainha e o receio do régulo poder reorganizar os
seus exércitos.
Confere plenos poderes ao major de cavalaria Mouzinho de
Albuquerque nomeando-o, a 10 de Dezembro, governador de
Gaza, que passa a ser um novo distrito militar.
Acossado, Ngungunhane entrega ao inimigo o régulo tsonga
Nwamatibyane, que se acolhera sob a sua protecção.
Mouzinho ignora mais este gesto de desespero do "Leão de
Gaza". Explica-se no "Relatório sobre a prisão do Gungunhana":
"tinha-se enraizado no meu espírito a ideia que eu havia de
prender ou matar o Gungunhana".
CHAIMITE
No dia de Natal, parte à captura de Ngungunhane apenas com
dois tenentes, um médico e 49 praças. Nos três dias de
marcha forçada, juntam-se-lhe vários régulos que se oferecem
para combater o monarca nguni.
Por duas ocasiões, este envia ao encontro de Mouzinho
emissários com presentes para a coluna não avançar mais.
Manda-lhe entregar uma vez 560 libras de ouro e alguns
dentes de marfim, noutra é o próprio filho primogénito
Godide que traz mais 510 libras de ouro e 63 búfalos.
Na madrugada de 28, Mouzinho avista as paliçadas de
Chaimite. Os homens dos régulos dissidentes só progridem no
terreno à força da espadeirada. É grande o terror que o
imperador ainda lhes provoca.
Mouzinho precipita-se para uma estreita abertura da cerca,
por onde cabe apenas um homem, seguido dos soldados brancos.
A ousadia resulta em cheio. Surpresos, os cerca de 300
fiéis, armados de espingardas, da aguerrida manga "Zinhone-Muchope"
(aves brancas), último reduto de defesa de Ngungunhane, não
esboçam qualquer resistência e fogem.
Lê-se no "Relatório": "este acto de cobardia dos pretos foi
providencial, pois fuzilando-me a 10 metros de distância (…)
teriam possivelmente morto todos os oficiais, os auxiliares
teriam fugido logo, e as praças brancas, sem ter quem as
dirigisse, teriam sido trucidadas…".
Grita Mouzinho por Ngungunhane. A cena descrita pelo
próprio:
"Não se pode fazer ideia com que respondeu às primeiras
perguntas que lhe fiz. Mandei-lhe prender as mãos atrás das
costas (…) e disse-lhes que se sentasse. Perguntou-me onde
e, como lhe apontasse para o chão, respondeu-me muito altivo
que estava sujo. Obriguei-o então à força a sentar-se no
chão (coisa que ele nunca fazia), dizendo-lhe que ele já não
era régulo dos mangonis [ngunis] mas um matonga [tsonga]
como qualquer outro".
Capturado Ngungunhane, Mouzinho de Albuquerque ordena o
fuzilamento do induna (conselheiro) Mahune e de Queto (tio
do imperador) que considera os instigadores da rebelião.
Ainda ele:
"Exprobrei a Mahune (que era a alma danada de Ngungunhane) o
ter sido sempre inimigo dos portugueses, ao que ele só
respondeu que sabia que devia morrer. Não é possível morrer
com mais sangue-frio, altivez e heroicidade; apenas disse
sorrindo que era melhor desamarrá-lo para poder cair quando
lhe dessem os tiros".
A derrota do imperador dos ngunis não faz cessar a
resistência em Gaza. A repressão colonial também não dá
tréguas. É o próprio Comissário Régio a assumir nos seus
famosos relatórios a política de terror, fria e selectiva,
que põe em prática para submeter a população.
Um mês depois de Chaimite, é aprisionado o régulo Mahazul e
a 24 de Fevereiro de 1896 o célebre Finish que fustigava as
canhoneiras portuguesas no Limpopo.
Irmãos, filhos e tios de Ngungunhane são executados, presos
ou impelidos para o exílio no Transvaal. Isso acontece até
aos régulos que tinham traído o seu chefe e combatido contra
ele em Coolela e Mandlakazi.
A resistência sofre um rude golpe em 21 de Julho de 1897. É
a morte em combate de Magigwani, o valente régulo, de etnia
khosa, que fora o comandante-em-chefe dos exércitos do "Leão
de Gaza".
Mas durante muito tempo ainda as autoridade coloniais vão
preocupar-se com a rebelião latente que fermenta em Gaza. No
relatório de 1910, o governador Freire de Andrade reconhece
o seu fracasso em conseguir a extradição do Transvaal dos
chefes ngunis que do exílio incitam as suas tribos a
combater os portugueses.
DESTERRO NOS AÇORES
7H30, 23 de Junho de 1896. Os guardas do Forte de Monsanto
descem às celas dos prisioneiros para os preparar para a
última viagem.
No dia anterior, o governo tomara, finalmente, a decisão de
os desterrar para a Ilha Terceira, nos Açores. Tentara
guardar segredo para que não se repetisse a agitação, quase
distúrbios, da populaça, verificada três meses antes. No
entanto, a imprensa tinha conseguido furar o sigilo e cinco
repórteres estão de plantão junto aos portões do forte.
Os prisioneiros entram em pânico quando os vão buscar.
Sobretudo Ngungunhane que se convence que chegou,
finalmente, o momento da sua execução. Recusa vestir-se,
rola pelo chão, faz o gesto de ser lhe cortada a cabeça.
Pergunta, como à chegada a Lisboa: "Vai morrer?".
As dez mulheres parecem enlouquecidas quando se dão conta
que vão separá-las dos companheiros. Tal como o cozinheiro
Gó, ficam no forte até serem dispersas por terras angolanas.
A muito custo, os guardas vestem Ngungunhane com as roupas
novas mandadas fazer para a viagem. As calças de brim estão
tão apertadas que se rompem ao subir para o "trem de praça".
Zixaxa troça da triste figura do rei destronado. Desde
Moçambique que ele e Ngungunhane lançam um ao outro as
culpas da rebelião nguni e nutrem um ódio recíproco.
Ao chegar ao Arsenal, esperam-nos o ministro da Marinha,
jornalistas, cavalheiros e damas munidos de convites
especiais. Godide dá mais autógrafos.
Ngungunhane tem de ser levado em braços para a canhoneira
"Zambeze". Está exausto, perdeu o último vestígio de
dignidade, mas já desistiu de implorar a audiência a D.
Carlos.
São todos revistados porque o comandante do navio teme que
escondam facas para se suicidarem. Depois empurram-nos para
o "bico da proa da coberta de vante" onde ficam alojados.
A imprensa fustiga o governo pelo "cúmulo da crueldade" de
separar os prisioneiros das mulheres.
"BAPTIZADO, ALFABETIZADO E
ALCOÓLICO"
Chegam à ilha Terceira, cinco dias depois, na tarde de 27 de
Junho e são instalados no forte de S. João Baptista. Outro
soberano, dois séculos antes, estivera aí recluso durante
cinco anos (D. Afonso VI, entre 1669 e 1674).
Ngungunhane ficará onze, o mesmo número de anos em que foi
imperador de Gaza.
Onze anos em que beneficia de um regime de prisão liberal.
Deixam-no caçar e dedicar-se à feitura de cestos. Aprende a
ler e a escrever.
Torna-se uma curiosidade turística. Das outras ilhas muita
gente vem à Terceira propositadamente para conhecer o antigo
"pesadelo de todos os governos portugueses", a "fera cruel".
Ou "o ex-rei de Gaza na África Portuguesa", como ficará
assinalado na certidão de óbito.
Baptizam-no a ele e aos seus companheiros de desterro.
Recebe o nome de Reynaldo Frederico Gungunhana. Godide é
António, Molungo é José. Do dia do baptismo, fica a patética
foto dos quatro homens em traje de rigor: fraque, punhos
saídos, laço, lenço, cartola, polainas.
Ngungunhane morre a 23 de Dezembro de 1906, vítima de
hemorragia cerebral no hospital militar de Angra do
Heroísmo. "Baptizado, alfabetizado e alcoólico", escreve o
historiador René Pélissier. Terá vivido cerca de 56 anos. É
enterrado no cemitério de Nossa Senhora da Conceição.
(Pouco menos de cinco anos antes, no interior de um "coupé",
num local ermo da Estrada das Laranjeiras, nos arredores de
Lisboa, suicida-se com um tiro de pistola o homem que o
perdera, Mouzinho de Albuquerque, o herói nacional, o
glorificado, o educador dos filhos do rei. Mata-se por
ingratidão, pelas cabalas dos políticos, por desilusão com a
monarquia em acelerada decadência).
Em 1985, por ocasião do décimo aniversário da independência
de Moçambique, os presidentes Ramalho Eanes e Samora Machel
acordam na transladação dos restos mortais do imperador de
Gaza.
A 15 de Junho, em cerimónia solene devida a um herói
nacional, a urna de madeira de Ngungunhane, esculpida por um
artista moçambicano, fica exposta, de início, no Salão Nobre
do Conselho Executivo da capital e, mais tarde, dá entrada
na Fortaleza de Maputo. Tem como companhia os baixos relevos
com que o poder colonial glorificou as "campanhas de
pacificação" de Gaza e as enormes estátuas de Mouzinho de
Albuquerque e de António Enes, que Moçambique ainda guarda
como relíquias históricas.
Tempos depois, a imprensa portuguesa e moçambicana levantam
dúvidas sobre a autenticidade das ossadas desenterradas no
cemitério de Nossa Senhora da Conceição. No origem da
suspeita está a pequenez do cemitério da ilha Terceira que
obrigava a remoção das ossadas para dar lugar à deposição de
novas urnas.
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